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    A Velhice Pede Desculpas

    Tão velho estou como árvore no inverno, 
    vulcão sufocado, pássaro sonolento. 
    Tão velho estou, de pálpebras baixas, 
    acostumado apenas ao som das músicas, 
    à forma das letras. 

    Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético 
    dos provisórios dias do mundo: 
    Mas há um sol eterno, eterno e brando 
    e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir. 

    Desculpai-me esta face, que se fez resignada: 
    já não é a minha, mas a do tempo, 
    com seus muitos episódios. 

    Desculpai-me não ser bem eu: 
    mas um fantasma de tudo. 
    Recebereis em mim muitos mil anos, é certo, 
    com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras. 

    Desculpai-me viver ainda: 
    que os destroços, mesmo os da maior glória, 
    são na verdade só destroços, destroços. 

    Cecília Meireles, in 'Poemas (1958)'

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  • Pergunto-te Onde se Acha a Minha Vida

    Pergunto-te onde se acha a minha vida. 
    Em que dia fui eu. Que hora existiu formada 
    de uma verdade minha bem possuída. 

    Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada. 

    E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida 
    por esperanças hereditárias? E de cada 
    pergunta minha vai nascendo a sombra imensa 
    que envolve a posição dos olhos de quem pensa. 

    Já não sei mais a diferença 
    de ti, de mim, da coisa perguntada, 
    do silêncio da coisa irrespondida. 

    Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)' 

     


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    Retrato de Mulher Triste

    Vestiu-se para um baile que não há. 
    Sentou-se com suas últimas jóias. 
    E olha para o lado, imóvel. 

    Está vendo os salões que se acabaram, 
    embala-se em valsas que não dançou, 
    levemente sorri para um homem. 
    O homem que não existiu. 

    Se alguém lhe disser que sonha, 
    levantará com desdém o arco das sobrancelhas, 
    Pois jamais se viveu com tanta plenitude. 

    Mas para falar de sua vida 
    tem de abaixar as quase infantis pestanas, 
    e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas. 

    Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)' 

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    Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda.

     

    Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

     

    Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil,

     

    Fiquei sem poder chorar quando caí.

     

    Cecília Meireles

     

     


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  • Tu tens um medo:


    Acabar.


    Não vês que acabas todo o dia.


    Que morres no amor.


    Na tristeza.


    Na dúvida.


    No desejo.


    Que te renovas todo o dia.


    No amor.


    Na tristeza.


    Na dúvida.


    No desejo.


    Que és sempre outro.


    Que és sempre o mesmo.


    Que morrerás por idades imensas.


    Até não teres medo de morrer.



    E então serás eterno.

     

    Cecília Meireles


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